Prólogo

julho 2, 2009

Como tudo na vida.

Certa tarde, depois da aula, eu estava caminhando no parque. Era a época em que eu ainda tinha alguma pretensão de emagrecer, e conseguia fôlego e força nas pernas para correr por dois, três ou até quatro segundos. Eu queria que fosse só uma piada, como o próprio título. Não pensava você que o “como” era só um advérbio espaço-temporal indefectivo de terceira conjugação, pensava? Sendo mais enxuto, o “como” é um verbo na primeira pessoa (eu mesmo).

Quando era pequeno, meu apelido em casa era avestruz; as outras crianças comiam terra e eu, que me contentava com papinha, é que era o exagerado, guloso, esquisito; mas ainda não gordo. Adquiri consistência quando as dúzias de latas de mingaus leves e nutritivos começaram a pesar no bolso e minha alimentação foi transformada da noite para o dia, de pozinhos com leite quente para arroz, feijão, hambúrguer, batata frita, frango empanado e outras novidades que deixavam os amigos com inveja de tanta fartura. Aos 7 anos fui levado ao pediatra, ao que meus pais descobriram que o que eu tinha não era problema na tireóide. Mesmo não sendo propriamente uma doença, escreveu uma receita e no mesmo dia tomei as primeiras doses dos remédios.

Naquela mesma madrugada tive uma convulsão atroz e, sem querer rememorar os detalhes que me contaram, acordei sem o olho esquerdo; com o direito, via tudo embaçado. Insisti para que a prótese de vidro me desse um olho verde, para contrastar com meu castanho. Hoje, pelo pouco que enxergo, julgo ter sido uma das escolhas mais admiráveis da minha vida, minha mãe também não cansa de dizer que é lindo; preservadas as devidas proporções, imagino. O assunto foi esquecido, os remédios também, e gordura, embora sempre à mesa, foi banida do vocabulário familiar. Cedo, ou nem tanto, assumi a guerra pelos meus próprios méritos.

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